
Integrada nas comemorações do primeiro centenário dos Caminhos de Ferro Portugueses, procedeu-se, finalmente, à inauguração solene da electrificação do troço Lisboa-Carregado e da linha de Lisboa-Sintra.

Como foi há um século, completado, precisamente no dia 28 de Outubro de 1956, que de Santa Apolónia partiram para o Carregado, em viagem inaugural, os primeiros comboios portugueses, entendeu-se, e muito bem, que a inauguração da electrificação das novas linhas e com ela a estreia do novo material, se fizesse também, antecedendo-se assim, por consequência, a inauguração do novo serviço na linha de Sintra com a partida do primeiro comboio eléctrico da estação de Santa Apolónia para o Carregado, o que se verificou, pelas 10 horas de domingo, 28 de Abril.

Muito antes da hora da partida, de Santa Apolónia, do comboio inaugural do novo serviço, havia saído da estação do Rego um comboio eléctrico para o Carregado, com cerca de mil pessoas, entre ferroviários, pessoas de suas famílias e convidados.

No largo fronteiro da estação de Santa Apolónia, os prédios achavam-se engalanados com colchas. Um batalhão da Guarda Nacional Republicana, de grande uniforme, e com as respectivas bandeiras e banda de música, estava postado em frente da Estação, a fim de prestar as devidas honras ao Chefe do Estado.

Eram 9 e 35 quando chegou a Santa Apolónia o Sr. Cardeal Patriarca e às 9 e 45 dava entrada na estação o Sr. Presidente da República, acompanhado pelos componentes das suas casas militar e civil.

O Sr. General Craveiro Lopes, depois de passar revista à guarda de honra, foi recebido pelos Ministros do Interior e das Comunicações; Prof. Mário de Figueiredo e Engenheiro Espregueira Mendes, respectivamente, Presidente do Conselho de Administração e Director-Geral da C. P.

Na «gare» encontravam-se, entre centenas de convidados, os Ministros das Finanças, da Economia e das Corporações; os Subsecretários do Orçamento do Exército, das Obras Públicas, do Comércio e Indústria, da Agricultura e da Educação Nacional, os presidentes da Assembleia Nacional e da Câmara Corporativa, etc.

Da C. P., além de todos os seus administradores, estavam presentes numerosos funcionários superiores.

Na presença de todas estas individualidades, procedeu-se então à bênção do novo material. Num estrado alcatifado e embelezado com plantas decorativas, ocuparam espaço o Senhor General Craveiro Lopes e os ministros do Interior e das Comunicações, e o Senhor D. Manuel Gonçalves Cerejeira, que, de báculo e mitra e paramentado a branco e oiro, acolitado pelo Cónego Dr. Honorato Monteiro e por Mons. Filipe Cardoso, procedeu ao cerimonial. Terminado o acto, o Senhor Cardeal Patriarca elucidou o Chefe do Estado sobre o significado litúrgico da cerimónia a que procedera.

Em seguida, a banda do Ateneu Ferroviário executou o hino ferroviário e todos tomaram então os seus lugares no comboio eléctrico, o qual, às 10 horas, partiu para o Carregado, para realizar o percurso do primeiro comboio que circulou em Portugal.

Nas estações, por onde o comboio passou a grande velocidade, o povo apinhava-se, curioso, e aplaudia, com entusiasmo, os ilustres ocupantes das carruagens. A electrificação do caminho de ferro era um facto consumado. Era bem visível a satisfação de toda a gente.

Eram 10 e 35 quando o comboio entrou na estação do Carregado, que se encontrava ornamentada com as bandeiras nacionais. Foguetes e morteiros anunciaram a sua chegada.

Numa linda e espaçosa tribuna, tomaram lugar além do chefe do Estado, ladeado pelos Srs. Conselheiro Albino dos Reis e Prof. Doutor Costa Leite (Lumbrales), presidentes, respectivamente, da Assembleia Nacional e da Câmara Corporativa, os membros do Governo, deputados e procuradores à Câmara Corporativa. Num cadeiral sentou-se o Senhor D. Manuel Gonçalves Cerejeira.