
Ia iniciar-se a sessão solene, comemorativa do grande acontecimento. Usou da palavra, em primeiro lugar, o Sr. Prof. Mário de Figueiredo, ilustre presidente do Conselho de Administração da C. P., que pronunciou o seguinte discurso:

Acaba de fazer-se, por tracção eléctrica, o mesmo percurso que, em 28 de Outubro de 1856, foi feito, a primeira vez, por tracção a vapor.
Não pôde fazer-se na data precisa em que um século sobre a inauguração do caminho de ferro em Portugal decorrera, como era grande desejo da Companhia.

Faz-se agora, 28 de Abril de 1957, justamente seis meses depois daquela data, ainda dentro do ano centenário que só acabará em 28 de Outubro de 1957.

Não podia ter-se feito antes.

Foi a conspiração dos acontecimentos que marcou este dia. Há coincidências que ficam bem no mundo das nossas devoções. Esta alegra-nos a alma !

Senhor Presidente da República!

Quis Vossa Excelência aceder à nossa solicitação, vindo presidir a esta festa inaugural. Enriqueceu-a com o prestígio da alta função que exerce e da sua Pessoa. A honra que o facto representa para nós jamais a esqueceremos. Ela servirá de estímulo a todos, (não só a nós que pouco podemos) para que continuemos na obra de renovação que o interesse geral impõe seja feita a ritmo cada vez mais acelerado.

Consinta, Sr. Presidente da República que, com as nossas respeitosas homenagens, lhe afirmemos o nosso maior agradecimento.

A vossa Eminência, Senhor Cardeal Patriarca, que trouxe as bênçãos de Deus ao novo empreendimento, tal como o seu ilustre predecessor D. Guilherme a trouxera na data inaugural, beijamos a mão com os sentimentos da nossa maior veneração.

Dizia Fontes Pereira de Melo, no meio das suas ansiedades de acção e de renovação do País, quando se esforçava por dotá-lo, no capítulo das comunicações e transportes, com a infra-estrutura indispensável ao seu progresso, dizia Fontes P. de Melo que - parar é morrer.

Parar é, creio que em tudo mas designadamente em matéria de caminhos de ferro, não acompanhar o movimento do progresso, não ir dando satisfação às necessidades que este cria.

O progresso envelheceu o caminho de ferro e o progresso o remoçou. São grandes as dificuldades de adaptação.

Oprimido pela concorrência de outros meios de transporte que a princípio não tinha, ele não pode por si colher os meios para proceder à transformação que lhe é imposta. Esta transformação é profunda e muito cara. Não são só os novos meios de tracção e outro material circulante; são também as infra-estruturas indispensáveis à utilização daqueles meios, diferentes das que se exigiam antes: diferentes, mesmo quando não são novas, mesmo quando são apenas a linha e as pontes.

São muito grandes as dificuldades de adaptação. De aí a demora em esta se fazer e o afastamento entre as crescentes exigências do público e os meios de lhes dar satisfação. De aí também o facto de, por muito que se faça, se estar sempre desactualizado e ter que sofrer-se o permanente descontentamento do público.

Mas o caminho de ferro não pode acabar. Mesmo os que mais se queixam dele, logo reclamam e protestam se se diminui o número de circulações ou se suspeitam que se pensa em fechar à exploração algum troço de linha que não tem tráfego. Têm a consciência de que não devem deixar perdê-la como instrumento de valorização actual e potencial das terras que serve.

Para não acabar, o caminho de ferro tem de transformar-se.
Tem-se caminhado, graças à compreensão do Governo, no sentido dessa transformação, da qual a que hoje se inaugura é o mais importante passo. O mais importante se for olhado como início da obra da electrificação.

A seguir a este início que acabará no Entroncamento, virá a continuação até ao Porto e arredores. Depois, com o desenvolvimento do País se verá. Desde já o que se divisa é que, com a electrificação Lisboa, Porto e arredores, se libertará boa parte do material Diesel que irá substituir o vapor no resto da rede. Este material terá de ser aumentado até ao sacrifício total do vapor. Talvez este sacrifício magoe a sensibilidade de muitos. Magoa de certo aqueles que, habituados a marcar o ritmo da sua respiração com o do resfolgar da sua máquina, vão sentir a falta do compasso, substituído pelo estremecimento de uma vibração contínua.

Talvez a paisagem vá ficar desfavorecida: faltar-lhe-á a imponência da máquina a vapor, os rolos de fumo a dar-lhe acentos de movimento e a emprestar-lhe efeitos de luz e sombra. Ao saudosismo das velhas coisas veneráveis sucederá o conforto para todos das novas, menos belas talvez, decerto menos pitorescas, mas mais adequadas às ansiedades da vida e às necessidades que esta vai criando.

Aliás, o carvão vai-se tornando um produto raro que é preciso poupar. Raro e caro, sobretudo para quem, como nós, o não tem, ou não pode, com economia, aproveitar, nos caminhos de ferro, o que tem.

Tudo isso impõe, não só à Empresa mas também ao País, a electrificação e a dieselização.

O Governo o tem reconhecido e não tenho dúvidas de que continuará a reconhecê-lo. A ele se deve o que tem sido feito, a ele se deverá o muito que ainda há a fazer. O ritmo da obra a levar a cabo não depende só dele; depende também da capacidade de realização de que dispuser a Empresa. Não capacidade financeira, que essa, mesmo com o suprimento actual do Estado, só a prazo bastante longo poderá adquiri-la: mas capacidade de ordenamento e técnica. Esta tenho a esperança de que não lhe faltará. Há o vício do caminho de ferro como nunca notei que o houvesse noutras actividades. Tem-no as crianças, os adultos e os velhos ao ponto de construírem linhas dentro de casa e se deliciarem a fazer manobras, a comandar sinais ou a vigiar entradas e saídas de túneis. Como não hão-de tê-lo os que fazem da vida do caminho de ferro a sua própria vida?

Este vicio os aglutina e lhes dá uma expressão gregária com a coesão dos laços de família. Assim se fala da «família ferroviária» que, como a família fundada nos laços do sangue, é o presente, o passado e o futuro. É a veneração dos vivos pelos mortos e a projecção de uns e outros nos vindouros. Nesta comemoração centenária, hão-de permitir que a todos preste a minha homenagem! E hão-de considerar fundada a minha esperança de que não faltará ao elemento humano da Empresa a capacidade técnica e de ordenamento para, se tiver os meios financeiros, realizar a obra de renovação que não deixará parar e, portanto, morrer o que nasceu sob o signo da velocidade e da vida.

Os meios financeiros não nos faltarão. O modo como o Governo nos tem ajudado e a deferência com que nos acompanha nesta celebração convencem-nos disso. Aqui lhe rendemos por tudo os nossos agradecimentos.

Endereçamo-los a todos que quiseram acompanhar-nos designadamente aos representantes de Empresas estrangeiras, estejam ou não a trabalhar connosco nesta obra, que quiseram confortar-nos com a sua presença e aos delegados das administrações de caminhos de ferro e de instituições internacionais a eles ligadas.

Da indústria portuguesa nem falo. Ela sabe que a nossa Empresa não faz sacrifício mesmo quando sacrifica a sua economia à economia dela. Temos bem a noção de que só devemos ser um elemento do interesse nacional. É a noção de serviço público que existe para servir o País e não interesses capitalistas de Empresa.

Não quero terminar sem felicitar Sintra e as povoações que a sua linha serve. Tem sofrido o que, pelas suas condições de zona suburbana e de unidade turística, igual às melhores, não merecia sofrer. A partir da meia noite de hoje, vai ficar bem servida. Felicito-a vivamente e peço-lhe que agradeça, como eu agradeço, ao Governo o grande melhoramento que agora tem porque o merece. A Companhia não quer agradecimentos. Fica muita contente de saber que, agora, Sintra vai ficar bem servida.