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A inauguração da tracção eléctrica nas linhas da C. P.
Depois o Sr. General Gomes de Araújo, ilustre Ministro das Comunicações, proferiu as seguintes palavras:

Senhor Presidente da República
Senhor Cardeal Patriarca

Começarei por apresentar a V. Ex.ª as minhas mais respeitosas homenagens e por juntar os meus agradecimentos aos que o Senhor Prof. Doutor Mário de Figueiredo, presidente do Conselho de Administração da C. P., acaba de dirigir a V. Ex.ª, por se ter dignado honrar com a sua presença este acto de transcendente significado para a vida dos transportes ferroviários.
A electrificação em curso dos caminhos de ferro portugueses representa, na realidade, uma transformação da sua estrutura, de importância só comparável à da sua própria construção, há 100 anos.
Bem andou, portanto, a C. P. em incluir nas comemorações centenárias a abertura ao serviço desta linha electrificada. Tal facto ficará indelevelmente assinalado na sua história.
Efectivamente o caminho de ferro foi, até que o advento do automóvel introduzisse um novo meio, de caracter revolucionário, na economia dos transportes, um factor capital, e, sob certos aspectos, exclusivo de prosperidade económica e de progresso social.
A sua existência e o seu desenvolvimento marcaram de forma inconfundível a marcha ascensional das sociedades civilizadas.
Pelo caminho de ferro se ligaram regiões antes praticamente separadas, se transportaram para os centros de consumo produtos que até então se perdiam, se levou o correio em curto prazo ao seu destino, se facilitou a deslocação das pessoas para os lugares de trabalho ou em viagem de negócio ou de recreio.
Por seu turno, a criação de comboios internacionais tornou-se um poderoso instrumento de convívio entre os povos, contribuindo, como mais modernamente o avião e o automóvel, para intensificar as suas relações.
Não foi todavia fácil a tarefa daqueles que cedo sentiram e compreenderam o papel que o caminho de ferro poderia desempenhar na vida humana. Às exigências próprias dum serviço público, em breve se juntaram as da concorrência resultante dum rápido desenvolvimento doutros sistemas de transporte.
Primeiro, o automóvel, que depressa deixou de ser uma curiosidade científica ou um instrumento de recreio para se tornar um factor de trabalho e de actividade ao serviço dos indivíduos e das sociedades.
Depois, a aviação comercial, que começando por transportar o correio ou alguns passageiros sem grande amor à vida, cedo transformou em realidade de sentido profundo a ideia de que o avião encurtaria as distâncias.
A evolução dos caminhos de ferro, feita sob o signo da velocidade, segurança e conforto e mais tarde da economia imposta pela concorrência dos novos meios, caracterizou-se por profundas transformações na técnica do material e nos métodos de exploração. Ao mesmo tempo que a locomotiva a vapor passava pelas realizações mais audaciosas, desenvolviam a locomotiva Diesel, a locomotiva eléctrica e a automotora que devem ser contadas entre as inovações capitais dos últimos 50 anos.
O desfile a que vamos assistir dará uma ideia da transformação. As modificações são por tal forma profundas e extensas que tornam quase irreconhecível o primitivo material fixo e circulante.
Se a velocidade, a segurança e o conforto são sem dúvida importantes, o aspecto económico, em especial para os países que, como Portugal, importam o material e o combustível, reveste-se de tal relevância, que todas as recentes transformações no caminho de ferro o têm fundamentalmente em vista.
A necessidade imperiosa de reduzir as despesas de exploração e as novas possibilidades na técnica, aliadas à atenção com que o Governo acompanha o problema dos transportes e o cuidado que o mesmo merece ás suas respectivas administrações, conduziram à política da substituição da locomotiva a vapor por locomotivas e automotoras Diesel, de que se adquiriram já cerca de centena e meia.
Nessas aquisições investiram-se elevadas importâncias; mas os encargos com a amortização estão contudo muito aquém da economia realizada, sem falar doutras vantagens, como a eliminação dos fumos e a maior potência e facilidade de utilização.
No prosseguimento desta política, o Plano de Fomento em execução incluiu a verba necessária para a electrificação da linha Lisboa-Sintra e do troço Lisboa-Entroncamento na linha do Norte, numa extensão de 150 quilómetros de via dupla, e para a aquisição do material circulante necessária à sua exploração.
Daqui resultará uma economia anual de 46.000 contos, que cobrirá largamente os encargos, embora pesados, do investimento feito.
A electrificação, utilizando recursos nacionais, reduzirá a importação de combustíveis, realizará um melhor serviço - aumento da velocidade, da frequência das circulações e na comodidade do transporte -, e permitirá fazer economias de exploração e resolver problemas técnicos, que doutra forma seriam insolúveis, em especial dentro das grandes cidades.
Os próprios ferroviários verão a sua tarefa simplificada, limpa e menos penosa.
Compreende-se, assim, que a electrificação dos caminhos de ferro seja reclamada pela opinião pública, reconhecida unanimemente de utilidade pelos técnicos, praticada em larga medida, imposta pela coordenação dos transportes, determinada pela economia dos países, exigida pelo progresso, e aconselhada socialmente.
Ela exige, porem, grandes investimentos de capital no equipamento da via; por isso, se resolve o problema económico dos caminhos de ferro, levanta o problema financeiro. Só deve, portanto, fazer-se nas linhas de tráfego intenso. O objectivo a atingir, neste aspecto, é electrificar as linhas suburbanas de Lisboa e do Porto e a linha do Norte, que liga estas duas cidades.
A política ferroviária a seguir, no aspecto de equipamento, parece pois ser a que vem sendo adoptada: electrificação das linhas cuja intensidade de tráfego justifique e o emprego cada vez maior de material Diesel nas restantes. É, aliás, a preconizada pelas Organizações Internacionais que se ocupam da economia dos transportes e seguida em grande número de países, mesmo nos produtores de carvão.
Há, por isso, que prossegui-la na medida em que a situação financeira do País e a realização de outros empreendimentos igualmente essenciais ao seu progresso, a permitam: só assim será possível restabelecer o equilíbrio económico dos caminhos de ferro, e simultaneamente melhorar as condições de exploração que mais interessam ao público e á economia geral.

Senhor Presidente da República

Os caminhos de ferro estão hoje em festa, e por duas razões: comemora-se o seu centenário e inaugura-se uma das linhas electrificadas e parte de outra a electrificar até 1958.
Desejaria aproveitar esta oportunidade para em nome do Governo me associar às homenagens prestadas pelos actuais ferroviários aos que os antecederam nesta tarefa e formular o voto de que, no segundo centenário, mereçam, do que estou certo, as homenagens que agora rendem.
Desejaria ainda prestar homenagem à memória do Conselheiro António Maria Fontes Pereira de Melo, o homem de Estado que tão largamente contribuiu para o progresso da Nação com o estabelecimento de uma rede de vias de comunicação rodoviárias e ferroviárias.
A inauguração dos caminhos de ferro em Portugal se nos deixou atrasados de 30 anos em relação ao seu início no Mundo, e de 8 em relação à vizinha Espanha, não pode, no entanto, e muito justamente, deixar de constituir um padrão de glória para a memória do notável Ministro, tanto mais que é bem conhecida a falta de interesse que, nessa época, havia no nosso País por esta forma de transporte.
O País beneficiou não só da visão do governante de espírito altamente esclarecido, mas ainda da circunstância do Ministro responsável pelas comunicações ser também Ministro das Finanças.
Também nos nossos dias, os grandes empreendimentos levados a efeito, com que se procura aumentar a produção e elevar o nível de vida dos portugueses, são devidos ao estadista que pela sua acção na pasta das Finanças tornou possível a sua realização e na da chefia do Governo, superiormente os orienta.
O Senhor Presidente do Conselho escreveu em tempos que são responsáveis da miséria material e moral do povo, a estrada que não foi construída, o caminho que não foi reparado, a fonte que se não canalizou, a escola que não foi aberta...
A electrificação dos caminhos de ferro portugueses está lançada; das outras obras sabe o País.
Vou terminar; não quero porém fazê-lo sem antes deixar aqui consignado o apreço e o reconhecimento do Governo pela competência e dedicação de que têm dado provas os engenheiros, técnicos e os operários da CP nos trabalhos da electrificação, e bem assim como a todos aqueles, nacionais ou estrangeiros, lhe dispensaram.