Introdução

O
Larmanjat foi uma criação de J. Larmanjat, nascido a 4 de Março de 1826 em Huriel, França. Homem com forte tendência para a mecânica e para as inovações, inventou numerosos instrumentos agricolas, apresentando em 1866 a máquina a vapor que figurou na Exposição Universal de Paris em 1867.
J. Larmanjat, de invenção em invenção, idealizou certo dia um caminho de ferro de certo modo revolucionário e económico, pois circularia pelas estradas, não necessitando, por consequência, de caminho próprio. Tratava-se dum caminho de ferro monocarril, sendo a via constituída por um carril central e duas passadeiras de madeira, estando todo o conjunto pregado a travessas de madeira.
O Larmanjat, baptizado com o nome do seu inventor, surgiu em 1868 nas estradas francesas, obtendo lisonjeiro êxito. O primeiro ensaio do caminho de ferro Larmanjat realizou-se na estrada de Raincy a Montfermeil, e a ele assistiu o Marechal Duque de Saldanha, que entusiasmado logo pensou em introduzir tal sistema no nosso pais.
Mas, o Larmanjat foi, muito simplesmente, um pitoresco e primitivo comboio que durante sete anos o lisboeta conheceu... e dele muito troçou. O nome deste meio de transporte foi popularíssimo em Lisboa, e as peripécias por que passavam os passageiros criaram fama. Quando o Larmanjat exalou o último suspiro, estafado de uma tão grande labuta para que não estava preparado, todos respiraram fundo e desejaram à sua alma uma paz merecida.
O Larmanjat em Portugal
Início da exploração
Para se compreender o que depois se passou é bom recordar que, por essa época, Portugal vivia numa febre de progresso, os caminhos de ferro estavam na ordem do dia de todas as discussões. Os seus pioneiros construíam activamente linhas sobre as quais em breve rodariam os comboios. Em 1868 já se encontravam abertas à exploração as linhas do Leste e do Norte.
E o Marechal Duque de Saldanha, figura preponderante da nossa história do século XIX, viu, no caminho de ferro Larmanjat uma possibilidade de desenvolver a viação acelerada em Portugal. Não hesitando em chamar a si a execução do empreendimento.
No ano seguinte, em 1869, pelos decretos de 29 de Julho, 12 e 25 de Outubro eram-lhe concedidas licenças para estabelecer um caminho de ferro sistema Larmanjat nos seguintes percursos, respectivamente: Carregado a Alenquer; Cascais a Pêro Pinheiro; e no de Lisboa a Leiria.
O empreendimento era bastante reclamado e toda a gente esperava colher dele grandes benefícios. E assim logo que o primeiro troço foi concluído, entre Lisboa e o Lumiar, tiveram lugar no dia 31 de Janeiro de 1870 as primeiras experiências oficiais que não foram coroadas de grande êxito.
Nesse dia, chuvoso por sinal, na estação do novo caminho de ferro, instalada no Palácio de S. Miguel (já demolido), situado para os lados de Santa Bárbara, em Arroios, perante o Marechal Duque de Saldanha partia, entre aplausos, e tripulado pelo próprio J. Larmanjat, o comboio inaugural, com os convidados que ocupavam duas carruagens. As primeiras rampas foram vencidas facilmente, mas ainda estralejavam os foguetes, quando a locomotiva estacou, as suas forças eram demasiado fracas para vencer a rampa de Arroios. Não houve outro remédio senão desengatar a carruagem da cauda que só mais tarde, a locomotiva veio buscar. Apesar do primeiro desaire não obstou, porém, que, no final das experiências, deixasse de ser servido na estação de Arroios, aos numerosos convidados, um opíparo jantar que se prolongou por mais de quatro horas.
As experiências continuaram, e no dia 5 de Fevereiro daquele ano o rei D. Luís viajou no comboio até ao Lumiar. No dia seguinte, a direcção do caminho de ferro punha, gratuitamente, à disposição do público, um comboio que efectuou três viagens de ida e volta entre Arco do Cego e o Lumiar. O comboio fazia o percurso de ida e volta em 50 e 60 minutos e a população da capital, apesar do primeiro dissabor, ficou maravilhada.
Enquanto se procuravam melhorar as características técnicas do novo sistema, Saldanha entusiasmado com este sistema de transporte ia requerendo novas concessões, e assim, em 11 de Julho de 1871, obtinha licença para estabelecer um caminho de ferro entre Lisboa e Sintra e em 29 do mesmo mês, ainda outra licença para o percurso de Cascais a Belém, prolongado dessa localidade até Alcântara, pelo decreto de 18 de Outubro de 1871.