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Centenário do caminho de ferro a norte do rio Douro (1875 – 1975)
Quando foi inaugurado o primeiro troço do caminho de ferro a norte do rio Douro, de Campanhã a Braga, em 20 de Maio de 1875, já tinham decorrido mais de 30 anos sobre a carta de lei de 19 de Abril de 1845, o primeiro documento oficial sobre a construção do caminho de ferro em Portugal.

Essa carta de lei concedeu à Companhia das Obras Públicas de Portugal, fundada por decreto de 19 de Dezembro de 1844, autorização para a construção de um caminho de ferro, pela margem esquerda do Tejo, ligando Lisboa à fronteira de Espanha.

A Companhia não vingou.

Mais tarde, em 16 de Junho de 1853, foi constituída a Companhia Central e Peninsular.

Em Setembro de 1853 foram iniciados os trabalhos de construção do primeiro troço do caminho de ferro em Portugal (Lisboa ao Carregado), conquanto oficialmente a rainha D. Maria II, já ha meses, tivesse feito a inauguração dos trabalhos, lançando uma mão de areia para começar simbolicamente um aterro.

Cerimónia idêntica, mas feita pelo rei D. Luís, aconteceu em 12 de Julho de 1872, utilizando o rei uma pá de prata para lançar a areia. Começavam assim os trabalhos para a construção do caminho de ferro do Minho, o primeiro a norte do rio Douro.

Esta cerimónia foi uma consequência da carta de lei de 2 de Julho de 1867, que no seu artigo 1º era bem categórica: – “É o Governo autorizado a construir e explorar, por conta do Estado, duas linhas férreas, que saiam da cidade do Porto e sigam, uma para Braga e Viana do Castelo até à fronteira da Galiza, e outra pelo Vale do Souza e proximidades de Penafiel até ao Pinhão”.

Em 20 de Maio de 1875 o caminho de ferro atingia a cidade de Braga.

Do que foi a inauguração, a que presidiu o rei D. Luís e sua Esposa, a rainha D. Maria Pia, leia-se o “Diário do Governo” do dia 21 de Maio de 1875:

“Porto, 20, às dez horas e dezassete minutos da manhã.

Ex.mo sr. Ministro do reino – Lisboa.

Suas Magestades sairam do paço para a inauguração do caminho de ferro do Minho às dez horas.

Porto, 20, às onze horas e trinta e cinco minutos da manhã.

O comboio real partiu da estação do Pinheiro às onze horas e dez minutos.

Grande enthusiasmo. Estavam para mais de 12 000 pessoas.

Houve a melhor ordem. – (L.S.) – O governador civil, Soares.

Braga, 20, às duas horas e quatro minutos da tarde.

Ex.mo sr. Ministro do reino – Lisboa.

El-Rei chegou aqui à uma hora da tarde.

Teve uma recepção enthusiastica e brilhantíssima.

Braga, 20, às oito horas e dezeseis minutos da tarde.

El-Rei saiu daqui às cinco horas e meia da tarde.

Continua o enthusiasmo. Estou persuadido que em nenhuma parte a família real teve uma recepção tão brilhante. Suas Magestades mostraram-se satisfeitas.

– (L.S.) – Visconde de Margaride.

Porto, 20, às oito horas e trinta e cinco minutos da tarde.

Ex.mo sr. Ministro do reino. – Lisboa.

Suas Magestades e Altezas acabam de regressar da cidade de Braga, para onde tinham partido hoje às onze horas da manhã, depois da benção das locomotivas, que se fez com toda a solemnidade na estação do caminho de ferro. No trânsito, tanto na ida como na volta e principalmente na cidade de Braga, Suas Magestades foram victoriadas constantemente com o mais vivo enthusiasmo. No Porto a recepção foi igualmente explêndida. – Fontes.”

Os benefícios desse caminho de ferro e os encantos da viagem foram, desde 1876 motivo de belos pedaços de prosa de escritores, como Alberto Pimentel e Bulhão Pato.

O primeiro escreveu no “GUIA DO VIAJANTE”:

“Vamos ao Minho, cuja capital, como sabes, é Braga – aquela vetusta Braga, para onde a gente ia dantes, encafurnada nas carruagens da antiga Companhia VIAÇÃO PORTUENSE (...). Ai! As antigas jornadas, o sono, o pó, o frio ou a calma, em mais remotas eras os salteadores, que depois vieram a ser substituídos pelos pobres, especialmente crianças (...). Salvé! Ó rápida locomotiva que em duas horas de viagem pões a gente em pleno Minho (...). Abençoada sejas! Abre o teu seio para nos receberes (...). O teu silvo chama por nós. Para Braga, amigo!”.

Quanto a Bulhão Pato, não foi menos entusiasta:

“É um regalo da alma e do corpo viajar naquele caminho de ferro que vai do Porto a Braga, respirando as correntes vivas e salutares do ar dos montes, contemplando os arvoredos por onde os pâmpanos se vão emaranhando com os seus cachos labruscos donde sai o espumante vinho verde, que mata a sede e alegra o coração”.

Os Artistas Plásticos igualmente se encantam com aquela viagem e justo é destacar o Pintor Jorge Colaço que num dos painéis policrómicos que decoram o monumental átrio da Estação de S. Bento, fixou para todo o sempre o momento em que todos os meios de transporte da época vieram saudar a máquina a vapor, até então desconhecida no Minho.

Alexandre Herculano, anos antes, em carta a Bulhão Pato, tinha-a exaltado:

“A máquina a vapor é um dom do céu, um instrumento de progresso legítimo, uma fonte de cómodos e gozo para o género humano, como o foram o arado, o navio, a imprensa para os homens que os viram nascer.”

Quando o comboio atingiu Braga já havia caminho de ferro de Lisboa a Badajoz (1863) e de Lisboa a Gaia (1864).

A sul do Tejo, já o comboio servia Setúbal (1861), Évora (1863) e Beja (1864).

A norte do Douro havia que recuperar o tempo perdido e assim o caminho de ferro na linha do Douro, previsto até Pinhão pela carta de lei de 2 de Julho de 1867, seguiria até Barca d’Alva, na fronteira.

Em 30 de Julho de 1875, pouco mais de dois meses após a chegada a Braga, já estava em Penafiel, o primeiro troço previsto, na linha do Douro.

Os Homens não descansaram mais. Em Março de 1886 o comboio atravessava a fronteira em Valença (linha do Minho) e em Dezembro de 1887 o mesmo sucedia em Barca d’Alva (linha do Douro), atingindo nessa data Salamanca, cuja linha férrea em território espanhol (126 km.) tinha sido construída pelos portugueses.

Nesse recuado ano de 1875, que recorda o caminho de ferro a norte do rio Douro, não pode ser esquecida a linha férrea de Porto (Boavista) a Póvoa de Varzim, inaugurada em 2 de Outubro desse ano, com a presença do estadista e grande impulsionador do caminho de ferro, Conselheiro Fontes Pereira de Melo.

Foram dois engenheiros ingleses, H. T. Ellicot e Barão de Keeler, que obtiveram a concessão para a construção da linha, em Junho de 1873. Constituiu-se uma Companhia, ficando como Director da Exploração o Historiador e Economista Oliveira Martins.

Também o comboio não parou na Póvoa de Varzim, era necessário atingir a grande linha e poucos anos depois já estava em Famalicão, uma das principais estações da linha do Minho.

Ao findar o ano de 1875 já circulavam comboios em três linhas a norte do rio Douro, mas continuava a não haver ligação para o sul, por comboio.

Mantinha-se o serviço criado em 1864 e a que Ramalho Ortigão se refere no livro “Primeiras Prosas”:

“Eram 7 horas da manhã.

Entramos em um dos char-à-bancs, que fazem o trajecto da Praça Nova à estação das Devezas, o qual não pode demorar-se muito, porque consta de seis lugares, e tem já três passageiros (...).

No largo das Devezas estavam já reunidos muitos viajantes (...).”




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