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Centenário da ponte Maria Pia sobre o Douro (1877 – 1977)
Do livro “Apontamentos para a História dos Caminhos de Ferro Portugueses”, de Frederico Pimentel, publicado em 1892, transcreve-se:

“Ainda antes do começo dos trabalhos para a construção das linhas férreas a norte do rio Douro, já o Governo tinha intimado a Companhia Real dos Caminhos de Ferro a completar a linha do Norte até ao seu termino, no Porto, em conformidade com a lei de 1866.

A Companhia apresentou uma solução que tornando muito menos extensa a ligação das Devezas com o Porto, dava também boa inscrição para as linhas do Minho e Douro.

A directriz que foi escolhida e aprovada vence o Douro onde as suas margens são as mais escarpadas e o vale mais profundo, obrigando a trabalhos muito importantes tanto numa como noutra margem, sendo a ponte de Maria Pia uma das concepções mais arrojadas em construções desta ordem.

A altura do tabuleiro desta tão notável como elegante obra d’arte moderna é, sobre a maior baixa-mar, de 61,30 m e a sua extensão total, incluindo os viadutos marginais, é de 352,875 m tendo o arco central 160,00 m de corda e 37,5 m de flecha.

O projecto desta gigantesca obra de ferro foi apresentado pelo Engenheiro Eiffel no concurso que para este trabalho se abriu entre as principais casas construtoras de França.

A construção desta obra começou em 5 de Janeiro de 1876 e terminou em 28 de Outubro de 1877.

É assombrosa a rapidez e precisão com que foram executados tão importantes como difíceis e delicados trabalhos. O elegante arco da ponte Maria Pia, o maior do mundo de então, foi construído sem recorrer aos andaimes, que se julgavam se não impossíveis pelo menos quase que impraticáveis e perigosos.

O novo traçado obrigou ainda à construção de 3 túneis, sendo de 202,20 m de extensão o da Serra do Pilar, de 113,50 m o do Seminário e de 77,25 m o da Quinta da China, além de um viaduto aquém da estação de Gaia, de 109,00 m de extensão, formado de 5 arcos de 12,00 m de luz cada um, tendo 23,00 m de altura máxima.”

A ponte chamou-se D. Fernando, o rei Artista, até à inauguração, altura em que a rainha autorizou a que lhe fosse dado o seu nome - Maria Pia.

O comboio inaugural por alvitre do rei D. Luís, não transportou toda a família real, pelo que após a chegada a Campanhã regressou ao ponto de partida, a entrada da ponte, para transportar o príncipe real, os infantes e outros convidados.

O comboio real era formado por vários salões, dois dos quais, o de Maria Pia e o do Príncipe, ainda podem circular. São os mais antigos existentes em Portugal, sendo de 1858 o primeiro, que foi oferecido, em 1862, pelo Pai da então princesa Maria Pia, o rei Humberto de Itália. O salão do Príncipe é de 1877.

Existe ainda, e devidamente resguardada, a locomotiva que rebocou o comboio real. Trata-se de uma valiosa peça de Museu.

O “Diário do Governo” de 6 de Novembro de 1877 referiu-se ao acontecimento, por ter tido a presença da família real, nos seguintes termos:

“Porto, 4 de Novembro, às nove horas e vinte e cinco minutos da tarde.

Ex.mo presidente do conselho de ministros -Lisboa.

Suas Magestades e Altezas continuam sem novidade em sua importante saúde.

Às duas horas teve lugar a inauguração da ponte sobre o Douro, sendo Suas Magestades recebidas com as maiores demonstrações de regosijo.

Era enorme o concurso de espectadores, que todos festejaram Suas Magestades com enthusiásticas saudações. Depois do lunch na estação de Campanhã, onde os brindes a Suas Magestades foram calorosamente correspondidos, seguiram Suas Magestades para o paço, e agora que são oito horas da noite vão assistir à inauguração da iluminação da ponte - (L.S.) - O governador civil, Agostinho Rocha.”

Vinte e sete anos depois, em 3 de Novembro de 1904, pela Instrução n.º 1587, de 25 de Outubro desse mesmo ano e assinada pelo Director Geral da Companhia, foi estabelecido na secção de via única, entre as estações de Gaia e Campanhã, o serviço de pilotagem com bastão.

Tem gravado a legenda:

BASTÃO PILOTO - secção Campanhã - Gaia.

Trata-se dum suplemento de precaução da circulação, tendo em atenção a passagem da ponte, na qual os comboios circulam com velocidade reduzida.

A PONTE MARIA PIA, no ano do Centenário, foi classificada como MONUMENTO NACIONAL.

Ao longo dos seus 100 anos tem sido tema aliciante para os Artistas Plásticos. Dos escritores não pode ser esquecido Ramalho Ortigão, que nas “Farpas” relata as suas impressões, em Julho de 1883, da viagem sobre a ponte Maria Pia:

“O panorama extraordinariamente belo, que se descobre da grande ponte sobre o Douro, principia a desenrolar aos nossos olhos os seus diferentes aspectos tão variados, tão imprevistos.

O rio, liso e espelhado como uma chapa de vidro azul e verde.

Uma extensa cordilheira de colinas, cobertas de pinheirais e desenhando no espaço vaporoso e húmido as curvas mais suaves e as perspectivas mais graciosas e mais risonhas. À beira da água, sulcada de barcos, de cor escura, esguios, da forma de gôndolas venezianas, remados de pé com largas pás que bracejam silenciosas e lentas, arredondam-se em grandes massas de um verde escuro e espesso os velhos arvoredos das quintas do Freixo, da Oliveira, de Quebrantões e de Avintes.”

Alguns anos depois, Brito Camacho, no seu livro “Jornadas” escreveu:

“Estamos em Gaia.

Paragem de alguns minutos e aqui estou eu atrapalhado sem me decidir pela direita ou pela esquerda, na travessia da ponte, porque o panorama, a montante, é lindo, e a jusante é simplesmente admirável.”




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